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As Mulheres na Cultura Védica

As Mulheres na Cultura Védica

Fonte: https://voltaaosupremo.com/

Kamalakshi Rupini Devi Dasi

Seja como a base da família, a educadora dos filhos, a força e a conselheira do marido, pregadora do conhecimento espiritual, governante sábia ou parte essencial dos sacrifícios religiosos, a instrução védica é clara: as mulheres devem ser protegidas e tidas na mais alta estima por toda a sociedade.

Na Bhagava-gita, capítulo 10, verso 34, Krishna diz: “Entre as mulheres, sou a fama, a fortuna, a linguagem afável, a memória, a inteligência, a firmeza e a paciência.” Estas opulências são consideradas femininas e são personificadas nas esposas de Dharma. A deusa da fortuna, Lakshmi; a deusa da sabedoria, Sarasvati; a deusa que é a mãe dos Vedas, de onde vem todo o conhecimento, Gayatri – são todas mulheres divinas. Vemos também que os rios, considerados tão sagrados e auspiciosos para toda a humanidade, como Yamuna, Ganges, Sarasvati, entre tantos outros, são deidades femininas. Além disso, quando nos referimos às divindades, o nome feminino vem sempre primeiro e, portanto, dizemos: Radha-Krishna, Sita-Rama, Lakshmi-Narayana e assim por diante.  Partindo dessas observações, podemos refletir sobre a importante posição da mulher dentro da cultura védica.

A mulher é a shakti, a potência, sem a qual nada pode ser realizado. Desse modo, a mulher exercia um papel primordial nos deveres religiosos, nos sacrifícios de fogo, que eram realizados em diversas ocasiões, como cerimônia de nascimento, escolha do nome do bebê, casamento, cerimônia fúnebre, entre outras. Sem a presença dela, todos esses ritos essenciais aos membros da civilização védica simplesmente não podiam ser realizados. O Rig Veda (1.79.872) diz: “A esposa deve realizar agni-hotra (yajna ou sacrifício), sandhya (puja) e todos os outros rituais religiosos diários. Se, por alguma razão, seu marido não está presente, a mulher sozinha tem total direito de realizar yajna.” Porém, sem a esposa, o marido não pode realizar yajna. Deste modo, quando um homem ficava viúvo, ele não podia mais realizar tais sacrifícios. Na história do Senhor Ramachandra, uma das formas de Krishna, é relatado que, certa vez, Ele foi realizar um agni-hotra, mas, como Sua esposa, Sita, não estava com Ele, Ele teve que usar uma deidade de Sita feita de ouro e colocá-la junto dEle na arena de sacrifício para que este pudesse ser feito.

As mulheres participavam de todos os tipos de atividades, de acordo com sua natureza, assim como os homens faziam. O Rig Veda (10.191.3) instrui: “A esposa e o marido, sendo metades iguais de uma mesma substância, são iguais em todos os aspectos; deste modo, ambos devem se juntar e tomar partes iguais em todo trabalho, tanto religioso quanto secular.” O Yajur Veda (20.9) diz: “Homens e mulheres têm direitos iguais de serem apontados como governantes”.  Deste modo, a mulher tinha importante papel em todos os aspectos da vida social. Como esposa, ela deveria instruir e ajudar o marido de diversos modos. O Atharva Veda (7.46.3) diz à esposa: “Ensina teu marido a conquistar riquezas.” A mulher, sendo representante de Lakshmi na vida familiar, era também responsável por administrar todos os bens da família e manter as tradições.

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Lakshmi, a deusa da fortuna.

Assim, a mulher era considerada a base do lar.  Ela era chamada patni, aquela que lidera o marido pela vida; dharma-patni, aquela que guia o marido no dharma, e sahadharmacharini, aquela que segue com o marido no caminho do dharma. Isso era possível graças à educação material e espiritual que a mulher recebia, conforme ordenado no Atharva Veda, que diz que as meninas deveriam se tornar completamente eruditas antes de entrarem na vida familiar. Do mesmo modo, o Rig Veda declara: “Um veda, dois vedas ou quatro vedas, junto com ayurvedadhanurvedagandharva-veda etc., e junto com educação, kalpa, gramática, nirukti, astrologia, métrica, ou seja, os seis vedangas, devem ser conhecidos pela mulher de mente pura, que é como uma água pura e cristalina, e que dissemina esse conhecimento diversificado entre as pessoas.” Assim fica claro também o papel da mulher como instrutora não apenas dos filhos e conselheira do marido, mas também como fonte disseminadora do conhecimento para toda a sociedade. Algumas dessas mulheres optavam por se dedicarem integralmente ao estudo espiritual, permanecendo solteiras, as quais eram chamadas de brahmavadinis), enquanto outras optavam por serem educadas para uma vida de casada, o que incluía tanto o estudo espiritual quanto o estudo de deveres específicos de sua casta, de sua natureza (como manejar arco e flecha, dirigir quadrigas, realizar sacrifícios de fogo etc.), as quais eram chamadas de sadyovadhus.

É frequente as mulheres serem altamente louvadas pelas escrituras devido ao seu elevado caráter, inteligência e boas qualidades. De fato, há algumas histórias que descrevem mesmo esposas que enganam a morte ou a subjugam e, assim, salvam a vida de seus maridos. Sem falar nos acontecimentos desastrosos ocorridos devido a ofensas cometidas contra mulheres, como a guerra de Kurukshetra, a famosa batalha na qual Krishna falou a Bhagavad-gita e que foi deflagrada devido à ofensa dos Kauravas contra Draupadi, a esposa dos Pandavas, quando os primeiros tentaram despi-la em frente a uma assembleia.

Por outro lado, dentre as qualidades consideradas femininas, também se destacam o coração macio, fé e inocência, o que pode torná-las presas de pessoas com más intenções. E tanto por isso quanto por sua importância social e espiritual, às vezes as escrituras falam da necessidade das mulheres serem protegidas, assim como devem ser protegidos os brahmanas ou sacerdotes, as vacas, as crianças e os mais velhos. Os brahmanas são aqueles que fazem parte da classe mais alta da sociedade e a quem todos prestam suas reverências, as crianças são o futuro da nação, os mais velhos são o reservatório de conhecimento, e as vacas são os animais mais sagrados, sem os quais não há sacrifícios religiosos, uma vez que a manteiga é um ingrediente essencial para isso. Quando se colocam esses elementos da sociedade e as mulheres na lista dos que devem ser protegidos, isso de maneira alguma é um atestado de incapacidade da mulher, mas, sim, uma prova de sua posição importante e elevada.

Por fim, tendo liberdade para trabalhar de acordo com sua natureza, para escolher seu companheiro, para escolher se quer casar ou permanecer solteira, se quer se dedicar à vida espiritual exclusivamente ou se dedicar ao cuidado da família, a máxima védica “que todos sejam felizes” aplica-se também, obviamente, à mulher. De qualquer modo, ela deve ser extremamente respeitada, seja como a base da família, a educadora dos filhos, a força e a conselheira do marido ou como aquela que é capaz de disseminar o conhecimento espiritual, que é uma governante sábia, ou que é parte essencial para a realização dos sacrifícios religiosos e, portanto, de todos os ritos pelos quais os seres humanos deveriam passar. Seja em qual posição for, o Manu-smriti (3.56-57), o livro das leis deixadas por Manu, o pai da humanidade, adverte: “Onde as mulheres são honradas, lá os deuses estão satisfeitos, mas onde as mulheres não são honradas, nenhum rito sagrado dá frutos. Onde as mulheres da família vivem tristes, a família logo perece completamente, mas a família onde elas são felizes, sempre prospera”.

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Radharani, destarte, é expansão de Krishna: Krishna é o energético, e Radharani é a energia. Assim como não é possível separar a energia do energético; onde quer que Krishna esteja presente, está presente Radha, e onde quer que Radha esteja presente, está presente Krishna. O fogo e o calor você não pode separar: em todo lugar onde há fogo, há calor, e onde quer que haja calor, há fogo. Igualmente inseparáveis são Radha e Krishna, mas Ele está desfrutando.

Svarupa Damodara Gosvami descreveu esta intrincada filosofia de Radha e Krishna em um excelente verso, o qual diz:

radha krishna-pranaya-vikritir hladini shaktir asmad
ekatmanav api bhuvi pura deha-bhedam gatau tau
chaitanyakhyam prakatam adhuna tad-dvayam chaikyam aptam
radha-bhava-dyuti-suvalitam naumi krishna-svarupam

(Chaitanya-charitamritaAdi 1.5)

Radha e Krishna é o Supremo único, mas, a fim de desfrutar, Eles Se dividiram em dois, e, no Senhor Chaitanya, juntaram-Se novamente os dois em um. Esse “um” indica Krishna no êxtase de Radha. Algumas vezes, Krishna fica no êxtase de Radha, e, outras vezes, Radha fica no êxtase de Krishna, o que continua. O ponto, no entanto, é que “Radha e Krishna” significa o único, o Supremo.

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O Advento de Srimati Radharani

01 I (artigo - O Aspecto Feminino de Deus) Radhastami (1913) (bg) (ta) (dia 2, Radhastami)Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Em palestra realizada em Montreal, 30 de agosto de 1968, o acharya-fundador da ISKCON fala sobre a grandiosidade da filosofia de Radha-Krishna.

Hoje é Radhashtami, o aniversário de Srimati Radharani. Radharani é a potência de prazer de Krishna, o qual, por Sua vez, é o Brahman Supremo, como encontramos no Bhagavad-gita (10.12):

param brahma param dhama
pavitram paramam bhavan
purusham shashvatam divyam
adi-devam ajam vibhum

“Sois a Suprema Personalidade de Deus, a morada derradeira, o mais puro, a Verdade Absoluta [param brahma]. Sois eterno, transcendental, a pessoa original, o não nascido, o maior”.

Krishna é o Brahman Supremo e, quando o mesmo quer desfrutar, Ele não Se vale da matéria para isso. A postura de desfrute está presente no Brahman Supremo, ou param brahma. Do contrário, não poderíamos ter esse espírito de desfrute. Porque somos partes integrantes do Brahman Supremo, temos essa postura de desfrute, mas, em nós, é materialmente contaminada. É fato, no entanto, que, porque Krishna desfruta, a postura de buscar desfrute também existe em nós, mas não sabemos como desfrutar. Estamos tentando desfrutar na matéria, a qual é, por natureza, embotada. Brahma-sukhanubhutya (Srimad-Bhagavatam 10.12.11): as pessoas estão tentando sentir o que é o brahma-sukha, o prazer de brahmanubhava, o que não é prazer material. Muitíssimos yogisabandonaram sua vida familiar e seu reino e adotaram a meditação para alcançar o prazer do Brahman. Na verdade, a meta é o prazer do Brahman. Muitíssimos brahmacharis e sannyasis estão tentando obter o prazer do Brahman e, a fim de obter semelhante sorte de prazer, estão negligenciando e rejeitando todo prazer material. Vocês acham que o prazer do Brahman é um prazer ordinário como este prazer material se, a fim de obterem uma porção do prazer do Brahman, grandes personalidades rejeitam todo este prazer material?

Não falemos de nós, porquanto somos homens comuns. Na história, temos grandes exemplos, como aquele de Bharata Maharaja, devido a cujo nome este planeta se chama Bharatavarsha. Bharata Maharaja foi o imperador do mundo inteiro e, como imperador, tinha sua bela esposa e seus jovens filhos. Com a idade de vinte e quatro anos, no entanto, quando apenas um rapaz, ele abandonou tudo. Talvez alguém diga que esta é uma história muito antiga, é claro, mas vocês conhecem o Senhor Buddha, o qual também era príncipe. Buddha não era um homem comum, mas sim príncipe, kshatriya, e ele estava sempre desfrutando com belas mulheres, pois o costumeiro prazer palaciano nos países orientais era que, no palácio, havia muitas belas moças, e elas estavam sempre dançando e dando prazer aos reis e aos príncipes. Assim, o Senhor Buddha também estava envolto por tal prazer, mas ele abandonou tudo e começou a meditar.

Há muitas centenas de casos na história da Índia de personalidades que, para auferirem o prazer do Brahman, abandonaram tudo. Esse é o caminho. Tapasya significa voluntariamente aceitar algo rigoroso para lograr o prazer supremo. Então, entendamos: se, para saborear um pouco do prazer do Brahman, todos os prazeres materialistas estão sendo abandonados, é possível acharmos que o Brahman Supremo, o Senhor Krishna, desfrutará deste prazer material? Isso é razoável? Krishna está desfrutando, lakshmi-sahasra-shata-sambhrama-sevyamanam (Brahma-samhita 5.29): “Centenas e milhares de deusas da fortuna estão ocupadas a Seu serviço”. É possível pensarmos que essas lakshmis, deusas da fortuna, são mulheres materiais? Como Krishna pode obter prazer nas mulheres materiais? Pensar isso é engano. Ananda-chinmaya-rasa-pratibhavitabhis tabhir ya eva nija-rupataya kalabhih: Na Brahma-samhita (5.32), vocês encontrarão que Ele expande Sua ananda-chinmaya-rasa, “a nuança da transcendental potência de prazer”, e as gopis, entre as quais Radharani é a principal, são expansões de Sua potência de prazer.

Radharani é o centro, de modo que não devemos pensar que Ela é uma mulher comum, assim como temos a nossa esposa ou irmã ou mãe. Não. Radharani é a potência de prazer, e o Seu nascimento não foi a partir do ventre de algum ser humano, senão que Ela foi encontrada por Seu pai no campo. Enquanto o pai arava o solo, ele viu que uma criancinha estava ali. Ele não tinha filhos, então ele pegou a criança e a apresentou à rainha, sua esposa: “Temos aqui uma excelente criança”. “Como obtiveste tal criança?”. “No campo”. Apenas vejam. O janma, ou nascimento, de Radharani é assim, o qual se deu hoje.

O nome Radha às vezes não é encontrado no Srimad-Bhagavatam, em virtude do que os membros da classe ateísta protestam com perguntas como esta: “De onde surge este nome Radharani?”. O ponto, contudo, é que eles não sabem como vê-lo. No Srimad-Bhagavatam (10.30.28), encontramos anayaradhitah. Não obstante a existência de muitas gopis, existe a menção de que, por essa gopiem particular, Ele é servido mais prazerosamente, ou, em outras palavras, Krishna aceita o serviço dessa gopi com mais prazer. A palavra aradhyate significa “adoração”. Desta palavra aradhyate, vem Radha. O nome de Radha, contudo, está presente em outros Puranas. Assim, esta é a origem.

Radha e Krishna. Krishna é o desfrutador, e Ele quer desfrutar. Então, uma vez que Ele é o Brahman Supremo, Ele não pode desfrutar de algo externo, dado Seu atributo de atmarama, “autossatisfeito”. Ele, portanto, desfruta em Si mesmo. Radharani, por conseguinte, é a expansão de Sua potência de prazer, daí se afirmar que Krishna não tem que buscar por coisas externas para o Seu prazer, sendo Ele pleno em Si mesmo. Radharani, destarte, é expansão de Krishna: Krishna é o energético, e Radharani é a energia. Assim como não é possível separar a energia do energético; onde quer que Krishna esteja presente, está presente Radha, e onde quer que Radha esteja presente, está presente Krishna. O fogo e o calor você não pode separar: em todo lugar onde há fogo, há calor, e onde quer que haja calor, há fogo. Igualmente inseparáveis são Radha e Krishna, mas Ele está desfrutando.

Svarupa Damodara Gosvami descreveu esta intrincada filosofia de Radha e Krishna em um excelente verso, o qual diz:

radha krishna-pranaya-vikritir hladini shaktir asmad
ekatmanav api bhuvi pura deha-bhedam gatau tau
chaitanyakhyam prakatam adhuna tad-dvayam chaikyam aptam
radha-bhava-dyuti-suvalitam naumi krishna-svarupam

(Chaitanya-charitamritaAdi 1.5)

Radha e Krishna é o Supremo único, mas, a fim de desfrutar, Eles Se dividiram em dois, e, no Senhor Chaitanya, juntaram-Se novamente os dois em um. Esse “um” indica Krishna no êxtase de Radha. Algumas vezes, Krishna fica no êxtase de Radha, e, outras vezes, Radha fica no êxtase de Krishna, o que continua. O ponto, no entanto, é que “Radha e Krishna” significa o único, o Supremo.

A filosofia de Radha-Krishna é uma filosofia muito grandiosa, a qual deve ser entendida no estágio liberado, e não no estágio condicionado. Quando adoramos Radha-Krishna em nosso estágio condicionado; adoramos, na verdade, Lakshmi-Narayana. Raga-marga e viddhi-marga: a adoração a Radha-Krishna está na plataforma de amor puro, raga-marga, ao passo que a adoração a Lakshmi-Narayana está na plataforma dos princípios reguladores, viddhi-marga. Enquanto não desenvolvermos o nosso amor puro, teremos que adorar com base nos princípios reguladores: o indivíduo tem que se tornar brahmachari, tem que se tornar sannyasi, tem que fazer a adoração de determinada maneira, tem que levantar de manhã, tem que oferecer artigos – muitíssimas regras e regulações. Existem pelo menos sessenta e quatro regras e regulações, as quais introduziremos gradualmente, à medida que vocês se desenvolvam.

Assim, em viddhi-marga, quando não temos amor por Deus, ou Krishna, temos que seguir a prática dos princípios reguladores, até que o tenhamos automaticamente. Quando vocês praticam tocar o tambor mridanga, por exemplo, não fica harmonioso no começo, mas, quando bem versados na prática, o som será produzido muito bem. Analogamente, quando estamos ocupados pelos princípios reguladores na adoração a Radha-Krishna, isso se chama viddhi-marga, ao passo que, quando você está realmente na plataforma amorosa, isso se chama raga-marga. Então, se alguém quer aprender raga-marga imediatamente, sem viddhi-marga, isso é tolice, haja vista que ninguém pode passar no mestrado sem passar pelos princípios reguladores do ensino fundamental, médio e superior. Diante disso, eu não me ocupo em discussões de Radha e Krishna muito facilmente. Em vez de o fazermos, prossigamos com o princípio regulador no momento presente. Gradualmente, à medida que vocês se tornarem purificados, à medida que vocês se situarem na plataforma transcendental, vocês entenderão o que é Radha-Krishna, mas não tentem compreender Radha-Krishna muito rapidamente, porquanto é um tema muito amplo. Se quisermos compreender Radha-Krishna muito rapidamente, haverá muitíssimos prakrita-sahajiyas.

Na Índia, há prakrita-sahajiyas, os quais tornaram a dança de Radha-Krishna, por exemplo, um brinquedo. Nas pinturas de Radha-Krishna deles, Krishna está beijando Radha e Radha O está beijando. Tudo isso é disparate, pois a filosofia de Radha-Krishna tem que ser compreendida pela pessoa liberada, não pela alma condicionada. Devemos aguardar, portanto, pelo afortunado momento em que estaremos liberados, então compreenderemos radha-krishna-pranaya-vikritir. Tentem compreender que Krishna e Radha não estão no âmbito material. A análise de Jiva Gosvami, em resumo, é que Krishna é o Brahman Supremo, e o Brahman Supremo não pode aceitar algo material, logo Radha não está no âmbito material.

Existe uma excelente canção, de autoria de Rupa Gosvami.

radhe jaya jaya madhava-dayite
gokula-taruni-mandala-mahite
damodara-rati-vardhana-veshe
hari-nishkuta-vrinda-vipineshe
vrishabhanudadhi-nava-shashi-lekhe
lalita-sakhi guna-ramita-vishakhe
karunam kuru mayi karuna-bharite
sanaka-sanatana-varnita-charite

(Radhika-stava)

Esta canção foi cantada por Rupa Gosvami, aquele a de fato ter compreendido Radha e Krishna. Então, ele diz radhe jaya jaya, “todas as glórias a Radharani”; madhava-dayite, “a qual é muito querida a Krishna”. Todos estão tentando amar Krishna, mas Krishna está tentando amar Radharani, de modo que podemos tentar compreender quão grandiosa Ela é. Todas as entidades vivas, no universo inteiro, estão tentando amar Krishna – krishna-prema. O Senhor Chaitanya disse que prema-pumartho mahan, isto é, “a meta mais elevada é amar Krishna”. E Rupa Gosvami descreveu: “Estás distribuindo krishna-prema, ó Chaitanya”. Assim, embora krishna-prema seja algo valiosíssimo, Krishna está buscando por Radharani. Apenas vejam o quanto Radharani é grandiosa! Apenas tentemos entender a grandeza de Radharani! Ela é grandessíssima, em razão do que temos que oferecer os nossos respeitos: radhe jaya jaya madhava-dayite.

Como Ela é? Gokula-taruni-mandala-mahiteTaruni significa “mocinhas”. Vocês podem ver nas pinturas que elas, as gopis, são todas mocinhas. De todas as mocinhas, entretanto, Radharani é a mais bela. Ela é encantadora às mocinhas também, pois Ela é belíssima. Damodara-rati-vardhana-veshe: Ela sempre Se veste tão bem que Damodara, Krishna, atrai-Se pela beleza dEla. Hari-nishkuta-vrinda-vipineshe: Ela é o único objeto amável de Krishna, e Ela é a rainha de Vrindavana. Caso vocês forem a Vrindavana, vocês verão que todos estão adorando Radharani. Rani significa “rainha”. Todos lá estão sempre falando: “Jaya Radhe!”. Todos os devotos em Vrindavana são adoradores de Radharani. Vrishabhanudadhi-nava-shashi-lekhe: Ela apareceu como a filha do rei Vrishabhanu. Lalita-sakhi guna-ramita-vishakhe: Suas companheiras são Lalita-sakhi e Vishakha-sakhi. Então, em nome dos devotos puros de Krishna, Rupa Gosvami está orando, karunam kuru mayi karuna-bharite. “Ó minha adorável Radharani, sois plena de misericórdia, em virtude do que estou implorando por Vossa misericórdia. Visto que sois deveras misericordiosa, muito facilmente concedeis Vossa misericórdia. Não deixarei, portanto, de implorar por Vossa misericórdia”. Neste ponto, alguém talvez dissesse: “Rupa Gosvami, és tão grandioso, és um estudioso erudito, uma personalidade tão santa, e está implorando pela misericórdia de uma mocinha comum? Como é isso?”. Portanto, Rupa Gosvami diz, sanaka-sanatana-varnita-charite: “Não se trata de uma moça comum. Apenas grandes personalidades santas, como Sanaka-Sanatana, podem descrever tal moça, logo Ela não é uma moça qualquer”.

Assim, a lição é que não devemos tratar Radharani como uma garota comum, ou Krishna como um homem comum. Eles são a Suprema Verdade Absoluta. Na Verdade Absoluta, todavia, existe a potência de prazer, a qual é exibida nas relações de Radha e Krishna, e todas as gopis são expansões de Radha.

 

Srimati Radharani: Gênero, Divindade e Amor na Forma da Deusa Dourada

11 01 | Radhastami

Maha Krishna Nama Dasa

No oitavo dia da Lua nova (asthami) do mês de Hrishikesha (agosto-setembro), comemora-se o dia transcendental de Radhastami no calendário vaishnava.

Alguns curiosos e um tanto ressabiados, ao verem uma belíssima pintura do Senhor Krishna com uma estonteante figura feminina ao Seu lado, logo se põem a inquirir: “Quem é essa mocinha que está ao lado de Krishna?”. Seu nome é Srimati Radharani, e a data de Radhastami marca o Seu aparecimento nos passatempos terrestres do Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus.

A seguinte pergunta feita por nosso curioso visitante poderia ser a de quem é Srimati Radharani, pergunta esta que será um dos fios condutores desta pesquisa, juntamente com outra intrigante questão: Já que vemos Radha e Krishna na pintura, qual será o gênero de Deus? De acordo com a teologia dos Vedas, será Ele masculino ou feminino, homem ou mulher?

Na tradição judaico-cristã, é comum a preponderância das referências a Deus em ambos o velho e o novo testamentos em um contexto de figura masculina, sendo frequentemente citado como “pai”, ao passo que teólogos contemporâneos, motivados pela teologia feminista, inovam em utilizar uma linguagem feminina para se referir a Deus[1]. No Islão, Deus é estritamente singular (tawhid), único (wahid) e inerentemente Um (ahad), e, inferindo a partir dos 99 nomes de Alá, provenientes de Seus atributos, é um ser masculino.

Nos movimentos neo-pagãos, onde se cultuam a Deusa Mãe protetora, altiva, fecundadora e fértil; muitos de tais grupos advogam um suposto retorno às antigas tradições banidas pelo “machismo” religioso patriarcal que assolou o Ocidente nos últimos séculos.

Na Índia, a mentalidade dos shaktas, ou os adoradores da Deusa, é exposta da seguinte maneira por Bhaktivinoda Thakura em seu Jaiva-dharma: “Ó Mãe Kali, quem, nos três mundos, pode sondar teus passatempos? Às vezes, assumes a forma de um homem, outras, de uma mulher, e às vezes lutas ferozmente numa batalha. Como o Senhor Brahma, crias o universo, como o Senhor Shiva, tu o destróis, e, como o Senhor Vishnu, permeias o universo e manténs todas as entidades vivas…”. (BHAKTIVINODA, 2010, p. 258-259).

Os textos que concluem todo o conhecimento védico, como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam, apontam Sri Krishna como sendo a divindade suprema e causa de todas as outras causas[2], sendo tal afirmação aceita pelos sábios, tais como o Senhor Brahma, Shiva, Kapila e Prahlada Maharaja, assim como por autoridades eminentes mais recentes, a saber, Ramanuja, Madhva, Rupa e Sanatana, Bhaktivinoda Thakura, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati e, atualmente, A.C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada.

Krishna é descrito como possuidor de multifárias energias[3], e tais energias funcionam de acordo com Sua própria vontade (Bg. 9.4-8), da mesma forma como, em uma grande orquestra sinfônica, onde cada músico atua de acordo com a batuta experiente do maestro regente, toda a manifestação se move e se mantém de acordo com o desejo de Krishna.

Dessa forma, a Suprema Personalidade de Deus é aceito juntamente com Suas energias. Krishna quer dizer a pessoa suprema e Suas energias, as quais se encontram no mesmo nível que Ele. Assim como um rei sempre é acompanhado por todo o seu séquito, ou como a palavra marido aplicada a um homem só tem sentido se ele é acompanhado por uma mulher – neste caso, sua esposa –, Krishna sempre está acompanhado de Suas energias: shaktimam shakti.

Essas potências multifárias, ou seja, toda a substância (vastu) de que é feita a realidade total, aparecem em três diferentes fases, antaranga—cic-chakti, tatastha—jiva-shakti bahiranga—maya,—tine kare prema-bhakti: “Além disso, a potência espiritual da Suprema Personalidade de Deus aparece em três fases – interna, marginal e externa –, as quais se ocupam todas em Seu serviço devocional amoroso”. (Chaitanya-charitamritaMadhya 6.160)

Dessas três, bahiranga ou maya-shakti é a potência que cria este mundo material. Jiva ou tatasthasomos nós, almas espirituais, as quais tentam explorar os recursos desta energia material inferior (Bhagavad-gita 7.5); porém, ambas as energias vêm da única realidade – do Uno supremo – substancial e eterna[4] que é o mundo espiritual compreendido como antaranga—cic-chakti ou svarupa-shakti.

O senhor possui uma forma feita de sac-cid-ananda (Brahma-samhita 5.1) – eternidade, conhecimento e bem-aventurança plenos –, e tais elementos compõem as três diferentes energias originais do mundo espiritual, a potência interna, as quais se refletem neste pervertido mundo material, como explica Prabhupada:

A Suprema Personalidade de Deus tem três classes de potência interna, a saber, a hladini, ou potência de prazer, a sandhini, ou potência existencial, e a samvit, ou potência cognitiva. No VishnuPurana (1.12.69), fala-se o seguinte ao Senhor: “Ó Senhor, sois o apoio de tudo. Os três atributos hladini, sandhini e samvit existem em Vós como uma só energia espiritual. Mas os modos materiais, que provocam felicidade, miséria e misturas de ambas, não existem em Vós, pois não tendes qualidades materiais (Chaitanya-charitamritaAdi 4.60).

Destas energias espirituais originais, Sua potência de prazer interno é conhecida como Srimati Radharani[5] (hladini-shakti). É essa energia que brota de Radha, que nutre Krishna e seus devotos com bem-aventurança nos passatempos de Vrindavana e o único elemento capaz de aproximar a alma (jiva) de Krishna, como explica Srila Jiva Gosvami em seu Priti-sandarbha:

Somente o serviço devocional pode levar alguém à Personalidade de Deus. Somente o serviço devocional pode ajudar o devoto a encontrar-se com o Senhor Supremo face a face. A Suprema Personalidade de Deus sente-Se atraído pelo serviço devocional, e, como tal, a supremacia final do conhecimento védico baseia-se em conhecer a ciência do serviço devocional (JIVA apud BHAKTIVEDANTA, Chaitanya-charitamritaAdi 4.60).

Sri Radhika é a personificação do amor e do prazer de Deus. Todo o amor puro e êxtase espiritual que tanto o jiva puro quanto Krishna desfrutam têm a forma de Radharani como fonte última. Quando a pessoa suprema quer desfrutar e sentir prazer; como Ele é a transcendência Absoluta, não existe a cogitação de Ele buscar felicidade em algo inferior e mundano. Assim, Ele expande de Si mesmo uma forma para tal propósito. Dessa maneira, Krishna expande de Seu próprio eu uma forma capaz de suprir prazer ilimitado para Ele que é o desfrutador supremo e ilimitado:

hladini-nama samprapta  saiva shaktih parakhyika
mahabhavadisu sthitva  paramananda-dayini
sarvorddha-bhava-sampanna  krishnarddha-rupa-dharini
radhika sattva-rupena  krishnananda-mayi kila
maha-bhava-svarupeyam  radha-krishna-vinodini
sakhya asta-vidha bhava  hladinya rasa-posikah
tat tad bhava-gata jiva  nityananda-parayanah
sarvada jiva-sattayam  bhavanam vimala sthitih 

“Quando a potência espiritual da energia superior interage com o aspecto hladini, ele cria fixação até o estado de Mahabhava, no qual ela (hladini) concede o êxtase superior. Essa hladini é Sri Radhika. Ela é a energia do energético, possui os sentimentos amorosos mais elevados e é a metade da forma do Senhor Supremo. Ela Se expande em indescritíveis formas de Krishna de inconcebível felicidade. Radha dá prazer a Krishna. Ela é a personificação de Mahabhava. Há oito variedades de emoções que nutrem o rasa de hladini. Elas são conhecidas como as oito sakhis de Radha. Pela associação com devotos e a misericórdia do Senhor, a energia hladini das entidades vivas realiza uma pequena parte da hladini espiritual. Em seguida, as entidades vivas tornam-se eternamente felizes e atingem o estágio de sentimentos eternos e puros, permanecendo entidades individuais”. (Sri Krishna-samhita, Capítulo 2)

Essa eloquente descrição de Srila Bhaktivinoda Thakura aponta para a existência de Deus como sendo energia e energético juntos. Assim como o leite nunca é separado da vaca, ou assim como o efeito nunca pode ser destituído da causa, Deus significa energia e energético juntos, como quando nos referimos às divindades e primeiramente nomeamos a energia e depois o energético: Lakshmi-Narayana, Sita-Rama e, consequentemente, Radha-Krishna. A energia divina detentora de um aspecto feminino (prakriti), ou aquela que é predominada, e o energético, a pessoa Suprema (purusha), o predominador.

“Essa hladini é Sri Radhika. Ela é a energia do energético, possui os sentimentos amorosos mais elevados e é a metade da forma do Senhor Supremo”. (op cit) Então, Deus, de acordo com a teologia Bhagavata, é energia e energético juntos, e não uma energia amorfa e sem atributos, compreendendo uma transcendência abstrata e totalmente ininteligível. Ele é masculino e feminino associados, Ele é shaktiman-tattva shakti formando o conceito de Verdade Absoluta (bhagavan)[6]mais elevado nos Vedas.

Como Sri Krishna é o completo shaktiman-tattva, Srimati Radhika é Sua shakti completa. Ela pode ser chamada de svarupa-shakti completa. De maneira que Eles possam desempenhar e saborear Suas lilas, Srimati Radhika e Krishna estão eternamente separados, mas também são eternamente inseparáveis, como o almíscar e seu perfume são mutuamente inseparáveis, e o fogo e o seu calor não podem ser separados um do outro. (BHAKTIVINODA, 2010, p. 405-406)

Em termos de tattva (verdade filosófica), bhagavan Sri Krishna é superior a Radha, pois Ele é o adi-purusha, ou a Pessoa original, mas, em termos de lila (as aventuras transcendentais do mundo espiritual), Radhika é superior, chegando às vezes até a controlar e a castigar Krishna, o controlador supremo, como observamos na canção de Jayadeva Gosvami, ou na seguinte citação de Srila Prabhupada:

Srila Rupa Gosvami declara que o serviço devocional atrai até o próprio Krishna. Krishna atrai todo o mundo, mas o serviço devocional atrai Krishna. O símbolo do serviço de­vocional do mais alto grau é Radharani. Krishna é chamado Madana-mohana, que significa que Ele é tão atrativo que pode derrotar a atração de milhares de Cupidos. Mas Radharani é ainda mais atrativa, pois é capaz de atrair até mesmo Krishna. Por isso, os devotos chamam-nA de Madana-mohana-mohani, “Aquela que atrai Aquele que atrai o Cupido”. (PRABHUPADA, 2012, p. 59)

É dito que Srimati Radharani aparece depois de Krishna, no reino de Varshana, próximo à residência de Nanda Maharaja, Nanda Gram, como a filha do rei Vrishabhanu e de mãe Kirtida. Uma princesa, fonte de todo amor e doadora do serviço devocional, aquela que outorga bhakti e ocupa as entidades vivas em tal serviço amoroso, ou seja, a guru, a mestre espiritual no mundo supramundano, como explica Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati:

As almas individuais encontram-se sob a direção de Nityananda. Recebem de Suas mãos seu serviço a Sri Gaurasundara, ou seja, seu serviço a Krishna. Nityananda não é um jiva. O jiva é uma potência de Nityananda. Nenhum jiva pode converter-se no meio do serviço ao Absoluto para outro jiva. Somente o Absoluto pode comunicar Seu serviço aos constituintes separados de Si mesmo. Essa é a verdadeira função do guru.

Mas Nityananda não instrui diretamente no serviço confidencial a Krishna; Srimati Radhika é o gurudo círculo íntimo do serviço a Krishna. Entretanto, Srimati Radhika só aceita a oferenda de serviço daquelas almas que foram favorecidas de maneira especial por Nityananda, as quais Ele considera adequadas para realizar serviço a Ela. (NITYANANDA CHARITAMRITA, 2000, p. 11-12)

Sendo Radharani a rainha de toda auspiciosidade e de todo amor, como seria esse amor na prática? Afinal, um dos grandes infortúnios de nosso mundo atual é o fato de estarmos encobertos por uma cegueira quase completa sobre muitos temas, inclusive o que seria o amor.

Como seria o tão abordado e glorificado pelas escrituras, amor de Srimati Radharani? Será que se trata de mais uma expressão abstrata e ininteligível, ou algo palpável e inerente a todos os seres de forma universal?

A onisciente Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Krishna, de tudo sabe, porém, por Este não conseguir sondar os sentimentos mais profundos de Srimati Radharani e Seu amor inigualável, Krishna vem a este mundo a fim de experimentá-los sob a forma de Sri Chaitanya Mahaprabhu.

Certa vez, absorto nos sentimentos e no humor de Radhika, Chaitanya Mahaprabhu simula uma conversa entre Suas amigas (sakhis), na qual confessa que Krishna Se tornava indiferente para com Ela simplesmente para por em prova Seu amor, e Suas amigas replicavam que era melhor não fazer caso (Chaitanya-charitamritaAntya 20.42). Nesse momento, tomado por diversas emoções extáticas, Ele (ou Ela) recita a seguinte sequência de versos.

na gani apana-duhkha,     sabe vanchi tanra sukha,
tanra sukha—amara tatparya
more yadi diya duhkha,     tanra haila maha-sukha,
sei duhkha—mora sukha-varya 

“Não Me preocupa Meu próprio sofrimento. Só desejo a felicidade de Krishna, pois Sua felicidade é o objetivo de Minha vida. Entretanto, se Ele Se sente muito feliz por Me fazer sofrer, esse sofrimento é Minha maior felicidade”. (Chaitanya-charitamritaAntya 20.52)

ye narire vanche krishna,     tara rupe satrsna,
tare na pana haya duhkhi
mui tara paya padi’,     lana yana hate dhari’,
krida karana tanre karon sukhi 

“Se Krishna, atraído pela beleza de alguma outra mulher, quer desfrutar com ela, mas está infeliz por não conseguir obtê-la, caio aos pés dela, pego sua mão e a levo até Krishna para empregá-la na felicidade dEle”. (Chaitanya-charitamrita, Antya 20.53)

ye gopi mora kare dvese,     krishnera kare santose,
krishna yare kare abhilasa
mui tara ghare yana,     tare sevon dasi hana,
tabe mora sukhera ullasa 

“Se uma gopi, sentindo inveja de Mim, satisfaz Krishna, e Krishna a deseja, não hesitarei em ir à casa dela e tornar-Me sua criada, pois só assim Minha felicidade despontará”. (Chaitanya-charitamritaAntya 20.56)

mora sukha—sevane,     krishnera sukha—sangame,
ataeva deha dena dana
krishna more ‘kanta’ kari’,     kahe more ‘praneshvari’,
mora haya ‘dasi’-abhimana 

“Minha felicidade está no serviço a Krishna, e a felicidade de Krishna está na união coMigo. Por essa razão, dou Meu corpo em caridade aos pés de lótus de Krishna, que Me aceita como Sua amada e Me chama de Sua queridíssima. É então que Me considero como Sua criada”. (Chaitanya-charitamrita,Antya 20.59)

Estes esplêndidos slokas compilados por Srila Krishna Dasa Kaviraja expõem de maneira precisa e pragmática as nuances e a atitude do mais elevado grau de amor em toda a existência, o maha-prema experimentado por Radha com relação a Krishna. Sentimentos tão profundos e transcendentais que até o próprio Krishna vem como Chaitanya Mahaprabhu para poder prová-los, pois, mesmo para Ele, em toda a Sua onisciência e onipenetrância, eram insondáveis.

As bases do que é realmente o amor são plantadas nestes versos, tratando-se de um sentimento que se desemboca em uma atitude totalmente livre de egoísmo e máculas materiais, o sentimento puro e genuíno da alma de servir e dar prazer sem esperar absolutamente nada em troca. Lembrando que a própria Srimati Radharani é a origem desse elemento que constitui a essência mais nobre de toda a realidade, tanto espiritual quanto material.

Sri Radhika é a deusa de todo amor e devoção, não só isso, Ela também está na mesma categoria da divindade suprema; portanto, quando falamos Deus, ou o conceito mais íntimo e profundo de Verdade Absoluta dentro dos Vedas, referimo-nos a Sri Sri Radha e Krishna, energia e energético, masculino e feminino. Como cantou Pepeu Gomes devido às boas influências que ditaram no mundo alternativo em meados dos anos 70: “Ser um homem feminino Não fere o meu lado masculino Se Deus é menina e menino Sou masculino e feminino…”.

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[1] http://www.monergismo.com/textos/antropologia_biblica/deus_genero_frame.htm acesso no dia 30/08/2013.

[2] Bg. 10. 8 e 14. 27; SB 1.1.1 e 1.3.28; Bs. 5.1.

[3] parasya shaktir vividhaiva shruyate svabhaviki jnana-bala-kriya ca: “O Senhor Supremo possui múltiplas potências, as quais atuam tão perfeitamente que toda consciência, força e atividades estão sendo dirigidas unicamente por Sua vontade”. (Svetasvatara Upanisad 6.8).

[4] “Maya é a sombra de svarupa-shakti. O trabalho de maya é real, mas não é uma realidade eterna”. (BHAKTIVINODA, 2010, p. 404).

[5] “Srimati Radhika é a transformação do amor de Krishna. Ela é Sua energia interna chamada hladini”. (CcAdi, 4, 59)

[6] vadanti tat tattva-vidas tattvam yaj jnanam advayam/ brahmeti paramatmeti bhagavan iti shabdyate: “Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta chamam essa substância não-dual de Brahman, Paramatma ou Bhagavan (SB 1.2.11).

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Referências Bibliográficas

A.C. Bhaktivedanta Swami. O Bhagavad-gita Como Ele É; edição completa com texto original em sânscrito, a transliteração latina e significados. Tradução e revisão de Enéas Guerreiro, Jenny Penteado Roberts e André Seródio. Bhaktivedanta Book Trust: São Paulo, 2006.

______. O Néctar da Devoçãoa ciência completa da bhakti-yogaum estudo resumido do Bhakti-rasamrta-sindhu de Srila Rupa Gosvami. São Paulo: Bhaktivedanta Book Trust, 2010.

______. Sri Chaitanya Charitamrita: com o texto bengali original e sua transliteração latina, os equivalentes em português. Tradução Paravyoma Dasa, Mahakala Dasa, Angira Muni Dasa. São Paulo: Bhaktivedanta Book Trust, 1984.

______. Srimad-Bhagavatam. Com texto original em sânscrito, sua transliteração latina, sinônimos, tradução e significados. São Paulo: Bhaktivedanta Book Trust, 1995.

BHAKTIVINODA, Thakura. Jaiva Dharma: a Ciência da Alma. São Paulo: Ed. Gouranga Publicações, 2010.

 

Radharani, o Lado Feminino de Deus

Satyaraja Dasa

A compreensão vaisnava da Verdade Suprema fornece uma resposta satisfatória para a pergunta “Deus é masculino ou feminino?”.

Essência da beleza e da relação,
Quintessência da compaixão e bem-aventurança,
Corporificação da doçura e do brilho,
Epítome da arte, da graciosidade no amor:
Que minha mente se refugie em Radha,
A quintessência de todas as essências. 

– Prabodhananda Sarasvati

Minha irmã Carol se tornou uma feminista radical nos últimos anos. Eu acompanhei seu desenvolvimento. Depois de ter devorado um livro após o outro sobre patriarcalismo e sociedades construídas por machistas, ela veio me procurar – seu irmão, que adora um Deus “masculino” –, vítima de filósofos sexistas, ludibriado por homens sem consideração pelas mulheres. Em outras palavras, ela sabia que eu adorava Krsna, que é claramente masculino, e isto era suficiente para ela me colocar em pé de igualdade com aqueles que diminuem as mulheres. Ela ficou um pouco confusa, todavia, quando viu que eu não a contra-ataquei como machista, e, apesar de minha adoração a um Deus masculino, eu não diminuía as mulheres. Ela se deu conta que eu era lúcido demais para ser confrontado diretamente.

“Por que você adora aquele garoto azul Krsna?”, ela perguntou. “Por que você imagina Deus como masculino? Por que não imaginar Deus como feminino?”.

“Bom”, eu respondi rápido e irritado, como se uma conversa de dois minutos pudesse resumir a perspectiva teológica de uma pessoa: “Ele é Deus”. “E além do mais”, eu adicionei, “nós não imaginamos Deus como queremos. Aprendemos sobre Ele a partir das fontes autorizadas, as escrituras, sejam os Vedas, da Índia, ou escrituras ocidentais, como a Bíblia e o Corão”.

“Como você pode saber?”, ela perguntou. “Talvez esses livros estejam enrolando você. Eu diria que Deus teria de ser a mulher suprema, com toda a sensibilidade e elegância que isso implica”.

“Mas isso não é sexismo, apenas vindo da direção oposta?”.

Eu esperei que aquela pergunta a fizesse pensar duas vezes.

“Se, por fim, Deus fosse a mulher suprema, isso não deixaria o homem fora da equação? Não se estaria dizendo que a forma da mulher é melhor do que a forma do homem? Você seria culpada por aquilo que você culpa a religião patriarcal”.

Depois de uma pausa, ela retrucou: “Mas você continua dizendo que Deus é homem…”.

“Primeiramente”, eu a interrompi, “de acordo com a consciência de Krsna, Deus é tanto masculino quanto feminino. Não é uma visão mais igualitária de Deus?”.

“Bom, talvez – se for verdade”, ela disse ainda descrente de uma tradição (e de um irmão) que ela havia se treinado para ver como sexista.

“Veja bem”, eu disse, “Krsna é descrito como Deus na literatura védica porque Ele tem todas as qualificações de Deus. Por que você sabe que o presidente dos Estados Unidos é o presidente? Porque ele tem as qualificações do presidente. Ele tem certas credenciais. Não é que você possa simplesmente ‘imaginar’ que alguém é o presidente e então – puf! – ali está o presidente. Não. Assim, se você estudar Krsna seriamente, você verá que Ele possui todas as opulências: força, beleza, riqueza, fama, conhecimento e renúncia. Qualquer um que tenha todas as essas qualidades em plenitude é Deus”.

Ela estava ficando agitada. Ela já me ouvira falar aquela definição de Deus e pensou que eu estava fugindo do assunto de Deus ser feminino.

“Mas a consciência de Krsna vai além”, eu continuei. “Radharani é a manifestação feminina de Deus. Ela é a mulher suprema. Então, vemos Deus tanto como masculino quanto como feminino”.

A Carol sorriu. Ela tinha uma carta atrás da manga.

“Se vocês reconhecem que Deus é tanto masculino quanto feminino, por que o principal mantra de vocês – aquela oração que você canta o tempo todo – é focado em Krsna, o aspecto masculino de Deus?”.

O “Ela” do Maha-mantra

O que minha irmã não sabia era que o maha-mantra é uma oração primeiro a Radha, e depois a Krsna.

“Você conhece o mantra que eu canto, sobre o qual você está falando?”

Ela o recitou: “Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare”.

Eu fiquei feliz em ver que ela sabia o mantra.

“Você sabe o que significa Hare?”.

“Não”, ela admitiu.

“É uma forte súplica a Radha. Por ‘Hare’, nós nos referimos à mãe Hara, outro nome de Radha, de forma suplicante. ‘Hare’ é a forma vocativa de ‘Hara’. Basicamente, o mantra está pedindo à mãe Hara, Radha, que ‘por favor, ocupe-me no serviço ao Senhor’”.

“Quer dizer que o cantar de Hare Krsna é uma oração à forma feminina de Deus?”.

“Perfeito”.

Aquilo chamou sua atenção.

“Diga-me uma coisa”, ela disse com sua crescente curiosidade, “o que significa a palavra ‘Radha’?”.

“Significa ‘aquela que melhor adora Krsna’”.

“Aha!”, minha irmã disse com o dedo indicador em riste. “Então Radha não é Deus. Se Ela é a melhor adoradora de Krsna, Ela é obrigatoriamente distinta dEle!”.

“Isso não é verdade”, eu disse. “Deus é a pessoa que faz tudo melhor. Como Krsna diz no Gita, Ele é o primeiro e o melhor em todos os campos. Das montanhas, Ele é o Himalaia; dos corpos d’água, Ele é o oceano, e assim por diante. Então, dos adoradores dEle, Ele também é o melhor – a melhor. Quem poderia adorar Krsna melhor do que Ele mesmo? Ninguém. Dessa maneira, Ele Se manifesta como Radha, Sua forma feminina, e mostra que Ele é Seu melhor adorador. Como Radha, Ele é o Deus adorador, e, como Krsna, Ele é o Deus adorado. Ambos igualmente excelentes”.

“Hmm. Fale-me mais”, ela disse.

“Tudo bem, mas pode ficar um pouco técnico”, eu disse. “Do ponto de vista vaisnava, ou da consciência de Krsna, a energia feminina divina (shakti) implica uma fonte de energia divina (shaktiman). Assim, quando a deusa se manifesta nas várias tradições vaisnavas, ela sempre tem uma contraparte masculina. Sita se relaciona com Rama; Laksmi corresponde a Narayana; Radha com Krsna. Uma vez que Krsna é a origem de todas as manifestações de Deus, Sri Radha, Sua consorte, é a fonte de todas as shaktis, ou energias. Ela é, portanto, a Deusa original”.

“O vaisnavismo pode ser visto como uma espécie de shaktismo, no qual a purna-shakti, a mais completa forma da energia feminina divina, é adorada como o aspecto mais proeminente da divindade, até mesmo eclipsando o Supremo masculino em alguns aspectos. No sri vaisnavismo, por exemplo, Laksmi (uma expansão primária de Sri Radha) é considerada a divina mediatriz, sem a qual o acesso a Narayana não é possível. Em nossa tradição da consciência de Krsna, Radha é aceita como a Deusa Suprema porque Ela controla Krsna com Seu amor. Vida espiritual perfeita só é obtenível por Sua graça”.

“Na tradicional literatura vaisnava, Krsna é comparado ao Sol, e Radha, ao brilho solar. Ambos existem simultaneamente, mas um vem do outro. Ainda assim, dizer que o Sol existe antes do brilho solar é incorreto – tão logo existe Sol, existe brilho solar. E o mais importante: o Sol não tem significado sem brilho solar, sem calor e luz. E calor e luz não existiriam sem o Sol. O Sol e o brilho solar, portanto, coexistem, um igualmente importante para a existência do outro. Pode-se dizer, então, que são simultaneamente unos e distintos. Eles são, em essência, uma única entidade – Deus – que se manifesta como dois indivíduos distintos com o objetivo de se relacionarem interpessoalmente.

“Deixe-me ler algo sobre isso para você no Caitanya-caritamrta [Adi-lila 4.95-98]: ‘O Senhor Krsna encanta o mundo, mas Sri Radha encanta até mesmo Krsna. Assim, Ela é a Deusa Suprema de tudo. Os dois não são diferentes, como evidenciam as escrituras reveladas. E, ao mesmo tempo, são unos, assim como o almíscar e sua essência são inseparáveis, ou como o fogo e seu calor não são diferentes. Enfim, Radha e Krsna são um, embora tenham aceitado duas formas para desfrutarem de um relacionamento”.

“Mas Krsna continua sendo a fonte. Ele é predominante”.

“Apenas em um sentido”, eu disse. “Em termos de tattva, ou ‘verdade filosófica’, Ele é predominante. Em termos de lila, ou ‘divinas atividades amorosas’, entretanto, Radha predomina sobre Ele. E lila é algo considerado mais importante do que tattva”.

Carol estava deslumbrada.

“Eu não tinha a menor ideia de tudo isso”, ela disse.

“Poucas pessoas têm”, eu disse a ela. “É por isso que os devotos trabalham duro na distribuição dos livros de Prabhupada – queremos que este conhecimento seja de todos”.

Carol me prometeu que iria começar a experimentar o maha-mantra e que nunca mais julgaria prematuramente uma religião, especialmente a consciência de Krsna. Também me pediu por uma oração que se focasse na posição suprema de Radharani, algo que ela pudesse cantar para se lembrar de que a consciência de Krsna reconhece – até mesmo enfatiza – uma forma feminina de Deus. Eu pensei por um instante e, então, compartilhei com ela um mantra composto por Bhaktivinoda Thakura, um grande mestre espiritual do começo do século XX:

atapa-rakita suraja nahi jani
radha-virahita krishna nahi mani

“Assim como não há tal coisa como Sol sem calor e luz, eu não aceito um Krsna que está sem Sri Radha!”. (GitavaliRadhashtaka 8)

Carol estava deslumbrada. Ela me revelou em confidência que há muito orava por uma tradição religiosa que não fosse sexista, que reconhecesse uma forma feminina do Divino. É claro que ela não estava plenamente convencida que Radha era essa religião, mas ela já estava, agora, desejosa de ouvir, já se abrira um pouco à consciência de Krsna. Ela estava inclinada a começar com as práticas de base, como o cantar e a leitura dos livros de Srila Prabhupada. Ali estava uma tradição que finalmente parecia atender a sua demanda, que satisfaria suas necessidades feministas. Radharani era o sonho da minha irmã que se tornava realidade – a resposta a uma prece feminista.

A Melhor das Gopis

Sri Radha é, dentre todas as gopis – vaqueiras namoradas do Senhor Krsna – a original. Ela é capaz de comprazer a Krsna com apenas um olhar de relance. Ainda assim, Radha sente que Seu amor por Krsna pode se tornar sempre mais grandioso, portanto Ela se manifesta como as diversas gopis de Vrndavana, que satisfazem o desejo de Krsna por relacionamentos ricos em variedade (rasa).

As gopis são consideradas o kaya-vyuha de Sri Radha. Não existe uma palavra nas línguas modernas equivalente a este termo, mas ele pode ser explicado da seguinte maneira: Se uma pessoa pudesse existir simultaneamente em mais de uma forma humana, aquelas formas seriam chamadas o kaya(“corpo”) vyuha (“multiplicidade de”) daquele determinado indivíduo. Em outras palavras, é a mesma pessoa, mas ocupando diferentes espaços e tempos com diferentes humores e emoções. Como a única razão da existência de Radha e Krsna é a troca de sentimentos amorosos, as gopis existem para auxiliá-lOs nesse amor.

As gopis são divididas em cinco grupos, o mais importante sendo o parama-preshtha-sakhis, as oito gopis primárias: Lalita, Vishakha, Citra, Indulekha, Campakalata, Tungavidya, Rangadevi e Sudevi. Muitos detalhes de suas vidas e serviço – incluindo a idade, o humor, o aniversário, temperamento, instrumento, cor da pele, nome dos parentes, melodia favorita, melhores amigas e outras informações de cada uma delas – são descritos nas escrituras vaisnavas. Esses elementos formam a substância de uma meditação interna, ou sadhana, projetada de forma a levar o devoto para o reino espiritual. Através desta meditação, gradualmente se desenvolve prema, amor por Krsna. Essa forma avançada de contemplação, todavia, deve ser feita apenas por devotos avançados sob a guia de um mestre autêntico. Tal nível é raramente alcançado. É, portanto, recomendado que se pratique o cantar do santo nome e que se aceite o caminho regulado de vaidhi-bhakti – ou a prática da devoção sob estritas regras e regulações – como é ensinado no movimento para a consciência de Krsna. Assim se alcançará naturalmente o nível mais elevado de consciência espiritual.

A tradição vaisnava na linha do Senhor Caitanya vê, claramente, o amor das gopis como amor transcendental da mais alta estirpe, retaliando acusações de sexualidade mundana com claras definições distinguindo luxúria e amor. Assim como o conceito da Noiva-de-Cristo na tradição cristã e o conceito cabalístico do Divino Feminino do misticismo judaico, a verdade por trás do amor das gopis é de profunda natureza teológica e constitui o zênite da compreensão espiritual. O amor das gopis representa o amor mais puro que uma alma pode ter por sua origem divina; a única relação que tal amor talvez tenha com a luxúria mundana é a aparência, aparência esta que é desfeita tão logo se estude os livros deixados pelas autoridades puras e autorrealizadas acerca destes tópicos tão queridos ao coração.